Sempre
me considerei uma pessoa crítica em relação à imprensa. Desde a época da
Faculdade e até um pouco antes procurava exercer um olhar que acho fundamental
a todos, mas principalmente ao jornalista: não acreditar em tudo que lhe vem à
frente, desconfiar das versões e das narrativas construídas, pensar no não-dito
das matérias. Para mim, a crítica é ação
essencial no Jornalismo. E ela não precisa necessariamente ser direta, em forma
de opinião pessoal, não deve ser meramente acusatória ou leviana. Ela pode e
deve sustentar-se em outros fatos, outros relatos, outras visões sobre um
acontecimento. Ela não advém somente da oposição, da contradição, do simples
ato de avacalhar alguma coisa. Trata-se de simplesmente olhar de outra forma,
ir além do que se vê.
A
gente vai alterando em nós mesmos esse conceito de crítica e a forma de
exercê-la a partir do amadurecimento e das leituras. Sim, admito que já fui
mais rebelde em relação ao meu senso crítico. Continuo ainda com muitos
impulsos de fazer uma crítica fácil. Eu e todo mundo, aliás. Porém, depois que
a gente trabalha em alguns lugares e se aprofunda um pouco mais no estudo das
dinâmicas jornalísticas, percebemos que é mais complicado do que parece, que
existe toda uma lógica de funcionamento da imprensa envolvendo profissionais,
empresas e público, agentes esses que engendrados produzem materiais com
conteúdo sensacionalista ou apelativo.
Digo
tudo isso porque faz tempo que desejo escrever sobre os comentários e
afirmações de que parte da cobertura feita pela imprensa em relação à tragédia
da Kiss foi sensacionalista. O sensacionalismo da mídia sempre foi algo difícil
de se discutir e de se chegar a um consenso. Meu olhar como jornalista difere
do olhar do cidadão. Então é claro que minha opinião sobre sensacionalismo está
totalmente contaminada pelo meu sujeito jornalista. Sobre este caso específico,
importante trazer aqui os questionamentos e as reflexões da professora da UFSM,
Márcia Amaral, a respeito do tema:
"O
que o jornalismo pode fazer no ápice de acontecimentos trágicos, senão relatar
o trágico? E quando deixa de informar e passa a fazer sensacionalismo? Não me
refiro a casos extremos, como foi o do programa Balanço geral, da Record que
simulou, ao vivo, com gelo seco, o cenário do incêndio, enquanto chamava o
repórter direto da cena da tragédia. Nem trato de iniciativas com o fim
exclusivo de aumentar a audiência ou os índices de leitura, como foi o caso da
revista Época, cuja capa sobre o incêndio foi escolhida pelos curtidores do
Facebook. Refiro-me a aspectos constitutivos do jornalismo informativo diário
que dizem respeito às rotinas produtivas, à percepção do que é notícia e à
narração de um acontecimento catastrófico."
Sem
querer utilizar-me de justificativas para toda e qualquer matéria sobre o caso,
é importante dizer o quanto é complicada para o jornalismo a cobertura de fatos
com tal grau de horror e dramaticidade, como este de Santa Maria. Ao tratar do
tema, não é difícil que a cobertura desbanque para a sensação, a emoção, o
drama. Jornalistas são cidadãos como quaisquer outros, se emocionam, choram e
sofrem da mesma maneira que outras pessoas mesmo conscientes de que precisam
ser objetivos e de que precisam ter o equilíbrio suficiente para produzir um
relato que não seja sustentado somente na emoção e na percepção pessoal do
horror. Racional e emocional são separáveis? Geralmente eles andam juntos nas
narrativas jornalísticas sobre eventos trágicos.
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Charge que circulou pelo Facebook nos dias seguintes à tragédia da Kiss |
Ouvi
reclamações sobre a cobertura televisiva. Acredito que houve abusos, exageros,
falta de tato de muitos profissionais. No Facebook, um dos meus amigos, que
perdeu um irmão na tragédia, queixou-se da abordagem de uma equipe de TV a
familiares no Hospital Universitário. Realmente, há que se ter muito cuidado no
momento de abordar um familiar num momento como esse. Bom senso impera nesse
caso, mas infelizmente muitos jornalistas na ânsia de ter que tomar depoimentos
e gravar imagens de pessoas chorando, acabam extrapolando os limites éticos e
perdendo até a humanidade. Presenciei o momento em que uma mãe, na semana da
tragédia, se ajoelha e grita em frente à boate. Neste instante, o repórter e o cinegrafista
de uma grande rede de tv brasileira, que estavam um pouco distante do ato,
correm enlouquecidos para gravar a cena. Uma coisa lamentável de se perceber.
Outra amiga chamou a atenção para a quantidade de fotografias de pessoas
chorando publicadas em jornal local, o que considerou como um aspecto
sensacionalista da cobertura. Pode ser. Como retratar o drama de um velório
coletivo sem mostrar o choro das famílias...será mais agressivo e
sensacionalista mostrar os caixões dispostos um ao lado do outro. Como utilizar uma imagem informativa, mas que não
seja chocante? Como se relata tanta dor e sofrimento? A todo momento, nos
confrontamos com situações como esses na profissão. E a dificuldade de
construir um relato não sensacionalista é ainda maior quando o próprio fato, a
informação principal, já é dramática em si.
É
claro que existem programas de televisão especializados no uso da linguagem
sensacionalista, como caso do programa Balango Geral, da Record, citado como um
exemplo no artigo da Professora Márcia. Há também apelos sensacionalistas no
programa do Faustão, da Ana Maria Braga, da Sônia Abraao, da Luciana Gimenez,
entre outros. E aqui não vale também usar a famosa "busca pela
audiência" como justificativa para matérias que exploram o sofrimento
humano somente com o objetivo de chamar a atenção, de apelar, de dramatizar sem
problematizar, sem refletir, sem mesmo informar. Ainda bem que hoje existem as
redes sociais e a internet para darem voz às críticas desses programas, para
ampliar a indignação e provocar a reflexão sobre as práticas da nossa mídia. E
quando digo nossa mídia, me incluo e incluo a sociedade porque não acredito na
separação mídia e sociedade. A mídia não é um ser apartado do social, ela é um
braço desse social, se alimenta dele e também o alimenta.
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Esta foto publicada com destaque pelo Diário de Santa Maria e sites do grupo RBS foi alvo de polêmica nas redes sociais. Imagem sensacionalista? |
No
site da Carta Capital, o jornalista Aurélio Munhoz faz uma violenta crítica ao
trabalho da imprensa na cobertura da tragédia da Kiss: "O papel que grande
parte da mídia está exercendo diante deste drama humano de proporções
colossais, a exemplo do que tem feito em relação a tantos outros, também se
revela abjeto e passível de duríssimas críticas. (...) As escolas de jornalismo
sérias ensinam, porém, que o tratamento de assuntos desta natureza pressupõe
cuidado extremo. Não por acaso. É tênue, muito tênue, o limite que separa a
informação de interesse público da notícia convertida em espetáculo com
objetivos escusos."
Na
contramão das críticas à imprensa, o professor da ECA-USP, Eugênio Bucci, fez,
na revista Época, uma reflexão interessante sobre a cobertura, pontuando
aspectos positivos do trabalho da mídia.
"Nas
últimas duas semanas, você não ouviu falar de outra coisa. O fogo, a fumaça, os
mortos de Santa Maria tomaram as capas de revistas, as redes sociais, o rádio,
a TV, as primeiras páginas de todos os jornais. O logotipo da boate Kiss, até
então uma fachada inexpressiva numa rua do interior gaúcho, ganhou visibilidade
de grife global. A Kiss ganhou o status de um signo maligno, macabro, a marca
pós-moderna da câmara de gás com música de fundo. Foi ao ar ao lado de velórios
improvisados num ginásio de esportes. A desolação, o mau gosto, o grotesco e o
horror se combinaram na mais intensa e intensiva cobertura jornalística da
temporada. Se tivesse ficado só nisso, só na emoção e nas lágrimas, a cobertura
teria sido vã, embora legítima e compreensível. Se tivesse ficado apenas no registro
dos pais que enterram filhos, no destino estúpido de uma juventude que morre
coletivamente num show de sanfona e fogos de artifício, teria cumprido um
papel. Mas seria um papel menor. Teria sido um teatro fúnebre e mais nada.
Desta
vez, a imprensa foi além de dar um close no choro fácil dos familiares e
amigos. Não se acomodou ao espetáculo pelo espetáculo. Não se satisfez em ecoar
os soluços dos que se debruçavam sobre caixões de adolescentes. A imprensa foi
mais fundo e, nisso, prestou ao país um serviço que só ela poderia prestar. Em
lugar de apenas confortar o país abalado pelo trauma, ela ajudou o país a
entender o que causou esse trauma."
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O choro, representação maior da tristeza, do sofrimento e do drama em uma tragédia, é buscado pelos fotógrafos e cinegrafistas, como nessa imagem da revista Veja |
Em
meio a tantas opiniões diferentes sobre os procedimentos da mídia, seu
trabalho, sua forma de abordar os acontecimentos, a certeza de que não
precisamos assistir por meio dos veículos de comunicação à exploração
irresponsável do luto público, não precisamos de um jornalismo raso e
despropositado que pergunte aos envolvidos nas tragédias "como eles estão
se sentindo", não precisamos de um jornalismo sem tato, que invada a
privacidade das pessoas de forma desrespeitosa, que force deduções, que
sobreponha a comoção individual ao contexto dos acontecimentos, que generalize
de forma superficial. E ao fazer isso, não estamos defendendo um jornalismo
frio, impessoal, desumano, mas querendo que o jornalismo seja realmente
jornalismo.
A tragédia da boate Kiss, pela sua dimensão e número de vítimas, ainda vai ser tema de muitas matérias jornalísticas. Algumas importantes e pertinentes, outras inúteis e despropositadas como mostra o texto de Sylvia Moretzsohn,
publicado no site Observatório da Imprensa sobre uma reportagem do Estadão
referente ao caso de Santa Maria. Um típico exemplo de como os números, tão
defendidos pelos jornalistas, e uma aparente "super pauta" que os
utiliza podem ser irrelevantes, inúteis.
Fotografias
da Tragédia - A emoção e o drama, além de poderem ser descritos no texto ou
mostrados em uma imagem de televisão cristalizam-se de forma muito intensa nas
fotografias. Abaixo estão dois links de fotos da tragédia.
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